Lições de doismile25
O que aprendi neste ano
W.,
Ainda há pouco, enquanto dobrava as meias de lã para guardar na gaveta, você se perguntou o que aprendeu de mais valioso este ano. Por isso, viemos à última página em branco do caderno, em busca de uma resposta.
Voltando as páginas ao início do ano, uma verdade inconteste:
“Não há liberdade/ onde a escolha existe”
Ao longo dos últimos meses, você se viu preso. Refém das próprias decisões. Entendeu que a condição humana é mesmo essa: somos servos do que decidimos deixar para trás. Guardados contextos, recortes históricos, de classe, de gênero, quase sempre temos escolha. Há quem lute por poder escolher, optar, seguir os próprios passos; agora sabemos: a escolha é o grilhão que nos aferra à liberdade.
Mais adiante, seu concerto com o desejo:
“Meu desejo é terra vasta/ e não pode ser contido”
Entendemos que desejo, espírito, destino, são palavras irmãs. Aprendemos a nos respeitar e nos permitir o desejo como força, potência, vida, sem nos reprimir (tanto). Faz parte.
“Parte desse chá que bebo pode ser perna de grilo. Como parte desse medo pode ser desejo vivo.”
A realização, outra vez, que somos só uma parte desse imenso Nada, e, portanto, somos também o Nada completo. Que o medo é o avesso do desejo, sem ser o oposto.
Duas páginas depois, em meio a um turbilhão, como um rochedo seguro em alto-mar, uma afirmação em forma de pergunta revela tanto do que sentimos:
“O que é a memória senão imaginação feita realidade no passado?”
Lembrar é sonhar pra fora. A memória é um sonho realizado que já superamos. Ou esquecemos. Ou que ainda queima em nós.
Este ano, nos vimos à deriva umas quantas vezes. Sem âncora, nem cais. E é assim que somos quem somos:
“Eu peço velas ao vento. Asas que anseiem o voo. Estar sempre em movimento para saber quem eu sou.”
Nos demos conta de que não somos o ponto central de nenhuma história. Por vezes, sequer da nossa própria história.
“A passeio no proscênio / sou de fundo, sem fala. / Rotundo. Jamais à ribalta”.
Perdemos e recuperamos a fé em nós. Em noites escuras demais, em tardes quentes demais, em sorrisos plásticos demais, numa língua tão estrangeira como a terra que habitamos, distantes dos nossos credos, nossas rezas, orações e bênçãos, incrédulos no deus destas calçadas, ateus de nós:
“A veces prendo velas/ en el altar de mis poemas./ Pero, hoy, soy ateo de mí.”
Acreditar que o sol sempre nasce. Ainda que oculto no madrepérola do céu outonal mediterrâneo. Lembrar continuamente que tudo é cíclico, sistólico-diastólico, expande-retrai, pulmão cósmico – e você, também.
W., você não é os dominós errados que veste. Nem são errados os dominós. Detrás da máscara, há uma outra: ambas são teu rosto. Há quem ame uma, despreze a outra; há quem ame as duas; há quem despreze as duas; há quem conheça uma terceira e uma quarta, que você nem sabe que mostra. Nenhum afeto será o bastante sem o teu antes de todos.
Que em 2026 você se permita ser corrigido, censurado, exortado, até mesmo odiado ou menosprezado – pelos outros. Que não seja mais a tua mão a tapar a boca, refrear os pensamentos vexatórios que te fazem ser quem você é – e que podem te levar a crescer, amadurecer, e mudar. Mudar. Mudar.
Acabaram-se as páginas do caderno, porém é preciso apenas confirmar que esta foi, afinal, a maior lição aprendida (ou relembrada) neste ano: você ainda está em construção. Não importa quão maduro ou adulto você se sinta, você ainda vai mudar muito. Permita-se se transformar.
E, por favor, termine seu tratamento dentário.
Feliz 2026.



E me vem uma frase do para-choque do caminhão que contratei quando saí do apartamento: Mude, mas leve somente o necessário!
Feliz Ano par!