Natal migrante
Montamos a árvore com todo o cuidado. Esparzimos os enfeites, modo a que ficassem distribuídos com equidade à volta do pinheiro: bolinha fosca, bolinha esmaltada, bolinha semitransparente, bolinha fosca etc. Rodeamos de pequenos lumes toda a extensão dos galhos. Alguém deu a ideia de cobrir os pés da árvore com uma manta vermelha, e sobre ela empilhamos os presentes. Na parede, um varal de letras formava “Feliz Navidad”, acompanhado de uma estrela de plástico e suéteres natalinos de papel. Sobre a mesa, uma toalha festiva e muita, muita comida: curry vegetariano de grão de bico, cogumelos gratinados, salpicão, maionese de batata, lombo assado, frango assado, torta soleil, omelete de forno, arroz à grega, farofa de damasco, tutu de feijão fradinho. Muitos dos pratos não eram o que chamaríamos típicos de Natal. Pelo menos, não de um Natal no Brasil. Este era um Natal de brasileiros migrados, migrantes, nômades, ex-pats, exilados.
Subi um vídeo no status do Whatsapp (como bom millenial) e logo recebi o comentário: “Que temáticos. Aqui em casa, tamos vendo série e vamos fazer uma janta normal”. Não me surpreende. Na verdade, é o que eu faria, também. Acredito que pra minha geração, o Natal vem perdendo a cada ano a importância. O brilho. A magia. Minha vontade, lá no fundo, também era de só ficar em casa, mesmo, assistindo algum filme (isso, sim, de Natal), comer algo gostoso com minha companheira, trocar um presente porque a gente gosta de se mimar e só precisa de uma desculpa pra isso, e já. Evitar todo o estresse de preparar refeições elaboradas dias antes, a preocupação com o que os outros vão levar, se vão chegar na hora, se vão se atrasar, não ter que passar pelo sistema de transporte público que fica sofrível nessa época, não ter que dormir na casa dos amigos na cidade, por não ter como voltar pro pueblo depois da meia-noite. Só de descrever já sinto outra vez o cansaço e o desânimo. Mas quando a família está a milhares de quilômetros, quando os amigos de infância só podem estar presentes em mensagens de texto, quando as tradições de uma época tão marcante como o Natal parecem todas bizarras, vazias e sem ressonância com nossa raiz brasileira, a vontade de nos agarrar com os amigos, juntar todos os perdidos na casa de alguém que possa nos receber, e compartilhar tudo o que temos de melhor em nossa cultura (comida, exagero, música alta, gargalhadas, referências abstratas da televisão dos anos 90), enfim, tudo isso fala mais alto que a preguiça, o tédio e o desencanto por essa data festiva tão deturpada e sequestrada pela lógica do consumo.
Depois de empanturrados com tanta comida, fizemos um amigo-ladrão. Todos levamos um presentinho, que ficou debaixo da árvore, e sorteamos a ordem em que cada um poderia optar por abrir um presente novo, ou roubar um que já havia sido aberto. A dinâmica deixa interessante o jogo num grupo heterogêneo, com integrantes que se conheceram naquela mesma noite, e outros que se conhecem de longa data. Foi divertido e frustrante, como todo amigo secreto deve ser. Me fez lembrar um Natal longínquo em que eu já havia deixado a casa paterna, mas voltava a cada ano pras festividades. Sempre acreditei que o Natal é mais Natal com criança junto, e meus irmãos já estavam entrando na adolescência. Foi esquisito, daquela vez. Não foi a primeira em que me senti estranho, avulso. No entanto, algo ali definitivamente abalou o parco espírito natalino que me restava: a família (pai, madrasta, irmã, cunhado, irmãos mais novos e mãe da madrasta) resolveu tirar um amigo secreto de última hora. Quer coisa mais impessoal? Quer dizer, eu tinha a tradição de fazer amigo secreto com um grupo de amigos específico (nos conhecemos no trabalho, então a dinâmica fazia sentido, e assim se manteve, pela diversão), mas em família? Era como se não nos conhecêssemos o bastante pra trocar presentes entre todos, não sei. Pensando agora, talvez nem seja tão estranho assim, mas para o Will daquele momento, foi. Penso quando foi a primeira vez em que o fim de ano foi amargo em vez de doce. Penso na morte de meu avô, com quem passava sempre o Natal. Penso no Natal em que convidei minha mãe para passar em minha casa, quando eu morava com uma namorada, e foi um fiasco. Penso no assassinato da minha prima, que foi com quem passei o último Natal em que toda a família do meu pai se reuniu.
Em contraste, as festividades aqui, quando anoitece mais cedo e faz frio, distante de todos que amo, que amei e me fiz desconhecido, que não sei se me amam ainda, que não sei se sigo amando, distante de rostos que via todos os dias, mais distante ainda de rostos que já eram raras visões a cada três, seis, nove meses, distante das pessoas que falam minha língua, que entendem o CD da Simone tocando no repeat, que não precisam de uma explicação científica pra entender o que é farofa, aqui as festividades sempre foram mais cálidas. Acolhedoras. Não sei se o espírito do Natal resiste em mim. Na verdade, sei que não. É difícil ver nascer a esperança em nós quando tudo o que vemos e ouvimos e sabemos aponta para a total destruição da nossa espécie e da nossa casa. É impossível ver florescer o anelo por um novo horizonte quando todas as pessoas parecem se odiar, e dar importância máxima só a si mesmas e ao que pensam. Entretanto, esfrego os olhos, cansados, e os obrigo a ver o milagre: quinze pessoas escolhem se reunir, cozinhar seus melhores pratos, e sorrir umas paras as outras, umas com as outras, se abraçar e se fazer presentes pra outras que mal ou sequer conhecem, simplesmente porque sabem como é difícil, no fim das contas, estar aqui.
Depois de um dia inteiro de mau humor, por haver trabalhado das 9h às 17h, por ter pensado em tantos natais frustrados e sem cor, eu me peguei rindo e abraçando as pessoas que deste lado do Atlântico são o mais próximo que tenho de uma família. Subi para a terraza do prédio, e o silêncio me preencheu. Uma única estrela brilhava no céu escuro, semi-encoberto de nuvens. Se aquela estrela me ouvisse, de verdade, pediria que nos restaurasse o encanto. Que nos fizesse ver o mundo outra vez como crianças. Que nos concedesse o dom de enxergar em tudo a fina camada de pó estelar que compõe o universo em que vivemos. Assim, quem sabe, deixássemos de ser tão céticos, cínicos e impermeáveis. Este seria o maior dos milagres de Natal.



E foi a partir de uma estrela que toda a história ganhou o mundo...